meu corpo é
a derrota materializada
de uma
batalha inviável de ser vencida: o consenso das fronteiras,
do olhar
que normatiza. Me habito vencida,
não sei ser
aquela história auto-ajuda de superação
sobre tudo
isso que torna minha existência impossível. Meu nome é
ficção,
meu corpo é ficção - num mundo de verdades irrefutáveis
sob a posição de ciência.
"Cromossomos felizes" - adoro essa piada, mas
como
somos
infelizes
quando cromossomos são tomados feito a fonte para nos negar
para destinar nomes que não são nossos
exaustivamente barganhados feito lança
contra
os sexos não-cromossômicos que nossos corpos constróem.
ficção,
meu corpo é ficção - num mundo de verdades irrefutáveis
sob a posição de ciência.
"Cromossomos felizes" - adoro essa piada, mas
como
somos
infelizes
quando cromossomos são tomados feito a fonte para nos negar
para destinar nomes que não são nossos
exaustivamente barganhados feito lança
contra
os sexos não-cromossômicos que nossos corpos constróem.
Cada célula
minha é uma estrela pulsante - sou inteira tesão,
tudo em mim
é sexo
não, eu não
tenho "identidade de gênero",
meu sexo é
fêmea
contracromossicamente
inventada
tão artifical
quanto o estrogênio que
fervilha
debaixo da língua.
Vim daquela
casa onde aquelas como eu nunca pisaram antes.
Nem eu
mesma, até me tornar
esta que
sou. Como ter paz
onde
aquelas como eu não estão? Como ter paz isolada
em meio a
muros e grades onde esse corpo
é excessão?
Tudo parece
ruína. Erosão de planos, projetos, expectativas.
Sou filha
do amor romântico,
mas também
sei
que
amor
romântico mata. Se eu não souber fugir
do que me
deu origem
acordarei
morta
sob as mãos
desse ideal impossível de ser vivido, atingido.
Tenho 2
combinados que me guiam:
aquele
de não
morrer
e o de não
desistir de mim.
Dizem que o
segundo também é uma forma de morte - mas tem dias que não
tem dias
que
penso se
desistindo dessa que me tornei
poderia
então convencer que
desistam de
produzir minha morte - essa morte que produzem
nas
muralhas
da
cisgeneridade
da
heterossexualidade.
Queria não
pensar em morte. Queria não sentir a morte
que me
entra todos os dias pelas entranhas, respirando tudo o que respiro. Queria
que a
palavra "resistência"
armasse uma
trincheira
fortes o
suficiente
pra
manter-me viva.
by Raíssa Éris Grimm
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